Juggler Rogrio Piva
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Nove Meses, Uma Gestação

Nove Meses, Uma Gestação

Em outubro de 2015, parti para a Ilha Maurício,

Show em um Projeto na Tanzânia

contratado pelo circo francês Achille Zavatta. Permaneci por 2 meses e meio neste local onde, além de atuar no circo, atuei nas ruas e em comunidades mais isoladas da região. Ao deixar a localidade, segui para as Ilha Reunião. Depois de 30 dias nesta Ilha, ex colônia francesa e agora departamento francês, muito desenvolvendo e ocidentalizado onde desenvolvi minhas ações pelas ruas e alguns projetos sociais. Saindo de Reunião, fui para a Ilha Mayotte, também departamento francês. Novamente, atuaria com o Circo Achille Zavatta. Por um mês permaneci com a caravana, já que a companhia foi apenas uma carona para chegar até aquele território, pois, paralelamente às atividades no circo, eu poderia seguir com ações sociais. Apesar de politicamente ser um departamento administrado pela França, vejo Mayotte como fruto explorado do colonialismo francês: segregada, desigual e pobre. Em sua totalidade de habitantes, pouquíssimos tinham acesso ao circo que, por sua parte, não possuía uma política que tentasse atingir as pessoas mais carentes. Desta forma, o público era composto por uma pequena parcela da ilha e a grande maioria ficaria sem saber o que seria um circo. Iniciei então meus trabalhos nos povoados - realizava espetáculos e aulas de circo com aparelhos feitos de sucatas, utilizava alguns espaços de associações e as ruas das vilas, até mesmo a casa em que me hospedava, cedida por uma amiga francesa chamada Amélie Mouchette que colaborou imensamente em cada trajeto que percorri a partir dali. O circo já havia partido e permaneci na ilha até que fui obrigado a deixá-la por não ter permissão de ficar mais tempo, mesmo com tantos apelos e a comprovação do que estava fazendo. Levando sanfona, monociclo e aparelhos de malabares, parti de barco para União de Comores, um país composto por três ilhas. Visitei cada uma delas, Anjouan, Moheli e Gran Comore. Sozinho, sem apoio financeiro e depois de ser furtado 2 vezes em Mayotte, segui viajem compartilhando minha arte e confiando nela como meu guia. Primeiramente, eu chegava nas capitais e, ousadamente sociável, fazia amizades conquistando algum espaço para dormir. Assim, podia organizar os espetáculos em cada vilarejo. Fui muito bem recebido em cada povoado, em cada casa, por cada família. Comores é um país onde a totalidade das pessoas são muçulmanas e ali, diante do ódio que vejo no lado ocidental do mundo relacionado ao Islã, em Comores, conheci uma amabilidade que até então, era desconhecido por mim. Relembrei da minha viajem pela Turquia onde aquele povo me recebeu em suas casas, gentis e amáveis, sem nenhum interesse (talvez, coisa de muçulmano).Show em um povoado na Tanzânia

Em Comores, pouco ou nada sabiam a respeito da figura de um palhaço. Assim, pude ser o primeiro para aquele povo. Em minhas noites, sozinho e em um quarto sem luz, eu chorava feliz por sentir que minha arte tinha um significado maior daquele que eu conhecia e que eu finalmente, estava descobrindo. Eu era abraçado por muitas pessoas, um abraço cheio de gratidão, tão verdadeiro, tão puro. Aquelas crianças me olhavam curiosas, espantadas por minha cor, por meus cabelos, olhavam o meu nariz vermelho e nos meus sensíveis gestos, gargalhavam escandalosamente com um raro prazer. Os adultos, que muitas vezes me chamavam de bruxo por não acreditarem nos meus feitos, sorriam felizes e contentes à minha presença e, entre eles, se uniam para rirem e se emocionarem com os shows. Em cada encerramento, eu sentia além daqueles sinceros abraços emocionados, o orgulho que eles tinham em jogar moedas no meu chapéu. Quantas vezes ganhava uma banana, ou qualquer outra fruta, uma garrafa de água com um pouco de suco, uma carta escrita por alguns jovens, com aquela caligrafia caprichada escrita por uma caneta vermelha “Você foi o primeiro palhaço que eu conheci, Obrigado”. Aqueles sorrisos todos juntos, e cada expressão de espanto e de pânico ao me verem sobre uma corda bamba, ou os suspiros enlouquecidos quando olhavam os múltiplos objetos de malabares que subiam e desciam desafiando a gravidade, construindo a coreografia através das sombras que se projetavam no chão opondo-se ao sol que ardia e iluminava todos nós. Eram tantos e tão poderosos os risos, que eu podia escutá-los a cada noite, ao deitar-me e ao fechar meus olhos. A cada noite, eu chorava feliz; na saudade constante, na solidão avassaladora, naquele quarto de terra, sem luz, naquele cômodo simples, vivia o mais puro de tudo o que eu busquei. Eu era o primeiro da vida deles e eles que, em sua humilde contribuição - muitos até envergonhados pelo pouco que ofertavam - não podiam imaginar o quanto me transformavam, o quanto me construíam como pessoa e como artista.

Projeto na Ilha Reunião Com crianças das Ilhas vizinhasApós as ilhas de União de Comores. Minha viagem seguiu à Tanzânia, cada vez mais difícil. Após ter sido furtado mais três vezes, e já sem recursos, seguia firme, me afastando dos lugares turísticos e entrando onde ninguém se importava. Diante das dificuldade imensas na Tanzânia, pois diferente de Comores, não consegui apoio das pessoas locais, tudo ficava muito mais complicado de organizar sozinho. Mesmo assim, nas ousadas tentativas, conheci pessoas como Aurélia e sua mãe em povoados como Kibaha que cheia de alegria como ao reencontro de um parente próximo que esteve distante muito tempo. Me abrigou, me alimentou, me ajudou nos shows nas comunidade. Choramos juntos em um abraço tão poderoso, pois no meu último dia na sua casa, o pouco que eu tinha, pude colaborar com ela para pagar sua escola e conseguir seu certificado para um emprego. Foi engraçado, pois olhei o dinheiro e pensei "antes que me roubem de novo", assim, entreguei a ela o que eu tinha e no momento, olhei meu acordeom e minha bolsa de malabares, orgulhoso e sabendo que era o único que eu necessitava. No clima árido, poeirão, deserto, aquele povo sofrido ainda sorria, arduamente, em cada cortejo. Aquela multidão de crianças, com suas perninhas frágeis e pés descalços, me acompanhava pelo seco e bruto solo daquele sertão. A arte faz brotar uma alegria dissemelhante nesses lugares ricos convertidos em misérias, e ali, ela cumpria o seu papel; usando meu corpo, ela unia toda aquela gente a contemplá-la. Oferecia o privilégio dos sonhos, a magia das cores e o sabor da esperança. Ali, onde ninguém vinha, onde os flashes permanecem distantes, onde o esquecimento perdura. Ali houveram tardes de algo completamente diferente, houveram tardes de piruetas, bolas que vão e voltam, chapéus voadores. Ali, houve um personagem de nariz vermelho que dizia que a vida é uma poesia de um alegre sofrimento. E quando terminava, eu voltava para um quartinho que me ofereciam, acompanhado daqueles seres tão pequenos, de sorrisos tão vivos, que me levavam em segurança, me olhando, curiosos, felizes. E pelas trilhas eu chegava nas tribos daquele povo nômade, milenar, primitivo, valorosos. Os Massai, que me recebiam desconfiados, agora felizes pelo show, agraciaram-me com um “shuka”, espécie de manta têxtil confeccionada artesanalmente, a qual não consegui mais tirar, pois ela vedava meu corpo e me fazia sentir que estava protegido. Aos pulos, eles dançavam para mim, agradecendo “Asante Piva” (Obrigado Piva).

Certa feita, me despedi. Precisava regressar. Exausto, cheio de saudades, interrompi minha viagem que seguiria para Ruanda. Já havia completado quase 9 meses. Me despedi da Nyumba Ya Bibi Sebastiana, um abrigo de jovens garotas resgatadas de famílias pobres que seriam trocadas por gados. Casa Nyumba, projeto da Missionária brasileira Ironi Ribeiro, onde visitei durante muitas noites e cantávamos e tocávamos, riamos com os filmes de Chaplin, dividíamos a pipoca que muitas nem conheciam e conseguimos iniciar a primeira livraria com alguns livros e jogos. Parti chorando desse lugar que muito me fez sorrir e ao embarcar no ônibus, vi aquela terra se distanciando. Fui lembrando de cada cena, de cada riso e abraço emocionado, de cada noite em prantos, de cada sabor, de tantas vidas ocultas que transformavam a minha.Viajando

Após grandes dificuldades, cheguei na África do Sul. Cansado, sem minha passagem de volta, sem dinheiro. Minha arte me levou a cada parte, o que mais precisei para fazer todo o percurso de aproximadamente 7.000 km foi apenas acreditar no poder daquilo que eu fazia e escutar a voz do coração que emocionado em cada estágio, me levava em segurança. Minha arte me garantiu tudo e seguiria me oferecendo tudo o que eu necessitasse. Peguei um trem, saí de Johanesburgo e fui para Pretória. Encontrei um circo grande e bonito chamado MC Laren, além do sensacional Junior Torres, um amigo brasileiro que lá trabalhava e muito me ajudou. Ofereci meu show para um espetáculo e lá rapidamente me contrataram. Lá, ganhei um trailer com chuveiro e água quente, o que já fazia tempo eu não conhecia. Atuei no circo por uma semana e ganhei o dinheiro para regressar ao Brasil. Com o convite para permanecer no circo, a qual eu recusei, pois precisa retornar. Foram 9 meses desde que eu havia saído de tudo o que eu conhecia para me reinventar e me redescobrir como artista e como pessoa. Uma gestação! O tempo que fez eu entrar verdadeiramente na vida de tantas pessoas e tantas pessoas entrarem na minha vida. Foi um privilégio tudo o que eu vivi nesse período. No 1° Festival Internacional de Circo que ocorreu em Lima, no Peru, em Agosto de 2016, onde pude participar logo após sair da África, concederam-me uma homenagem e o reconhecimento pelo meu período na África, como um importante serviço prestado à arte circense, uma forma de difundir a arte do circo e levá-la até lugares antes nunca chegados. Essa odisseia renderá um livro e uma exposição fotográfica, através do material que foi produzido na viagem. Vídeos, depoimentos, imagens, memórias afetivas, saudade e conhecimento. Diante de um cenário mundial caótico, tomado pelo egoísmo e individualismo que se reproduzem em todo o mundo, a arte resiste como um fio de esperança para que se enxergue o universo em sua essência, bem como para nos ensinar a olhar nosso interior, numa tentativa de resgatar a compaixão e o afeto por tudo e todos.

 

Matéria publicada no site só notícias boas.

http://www.sonoticiaboa.com.br/2016/07/04/brasileiro-que-fez-show-para-o-papa-alegra-criancas-na-africa/

 

Cenas de alguns momentos do showPedindo autorização para o chefe de uma tribo Massai

https://www.youtube.com/watch?v=tmANpOfiAvE

https://www.youtube.com/watch?v=cIKChK5jvDw

 

Rogério Piva

 

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