Juggler Rogério Piva
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Circo Alexander Pikard em Zagreb na Croácia com Rogério Piva no malabarismo

Circo Alexander Pikard em Zagreb na Croácia com Rogério Piva no malabarismo

Despedi-me do pequeno Circo Alexander Picard, um circo mambembe da Hungria que Circo Croacia Zagreb Rogério Pivaveio de passagem pela bela Zagreb, na Croácia. Eu também estava de passagem, como tantas vezes acontece nesta vida errante, quando uma aparição repentina pela região me levou até aquele picadeiro. E foi assim, sem grandes preparativos, que cheguei. Já no primeiro dia, sentia-me em família.

Que poesia deliciosa aquele circo representa.

Na sua mais pura simplicidade, ele se mantém nostálgico, poético, resistente, independente, como tantos circos mambembes espalhados pelo mundo. Uma família de longa tradição, que chegou a me mostrar fotografias de seus antepassados viajando em carroças puxadas por cavalos. Um nomadismo puro, errante, feito de estrada, encontros e despedidas.

É um circo pequeno. A iluminação é simples, o picadeiro tem ribaltas e a cortina, remendada, parece carregar consigo um pouco de cada lugar por onde passou. O público entra encantado, como se atravessasse um portal para dentro de um filme épico. Aos poucos, vai se espalhando pela arquibancada rústica de madeira, procurando um lugar confortável para descobrir o que aquela noite reserva.

E o circo vai enchendo.

Nesta simplicidade, há um capricho muito particular. Tudo é feito da melhor maneira que eles acreditam ser possível. E, talvez por isso, tudo chega ao público com uma sinceridade difícil de encontrar. Não há a pretensão de parecer algo que não é. Há apenas o desejo de fazer bem, de entregar o melhor espetáculo possível, de manter acesa aquela pequena chama.

Sorríamos à toa quando percebíamos que todos os lugares estavam ocupados. E, mesmo assim, sempre conseguíamos encaixar mais alguém que chegava.

Circo Croacia Zagreb Rogério PivaUm senhor barrigudo e simpático recolhe os ingressos. Uma senhora prepara a pipoca como uma especialista. A dona do circo faz o algodão-doce e não esconde sua bela maquiagem, nem os grandes cílios que, logo mais, também estarão em cena. O dono do circo vai de um lado a outro: vende na bilheteria, cuida da técnica, confere a arquibancada, verifica o clima, os cabos, o som. E, claro, em algum momento, também estará no palco, para mostrar o grande artista que é.

O espetáculo começa com uma abertura de coreografia simples, talvez até um pouco cafona, mas cheia de verdade. A família exibe tudo o que sabe, junto com alguns artistas que, como eu, de alguma forma chegaram até ali, cada um carregando sua própria vida e sua própria história.

E é bonito ver como tudo se mistura.

Ao fim, todos entramos em cena. Estamos gratos e felizes pela conquista de uma casa cheia. E aquele mesmo senhor barrigudo que recolhia os ingressos aparece vestido de Papai Noel, para a alegria de todos.

São cerca de quinze pessoas participando de cada processo. Quinze pessoas que, pelo pouco que pude ver, compartilham com alegria aquele humilde picadeiro. Cada um fazendo sua parte, cada um sustentando, à sua maneira, a existência daquele pequeno mundo.

E talvez seja justamente isso que mais me encanta: a capacidade de construir uma vida inteira em torno de algo tão simples e tão bonito.

Agora, daqui do meu quartinho, cedido pelo companheiro Neno, que me tratou como um filho, vou em devaneios pela madrugada que afugenta meu sono. Relembro os dias naquele circo, os rostos, os gestos, a casa cheia, a alegria de conseguir encaixar mais uma pessoa na arquibancada.

Penso em como é bom sentir e viver esta poesia.

Por momentos, estou contente e em paz. Mas, às vezes, as lembranças e a saudade resgatam em mim aquele vazio que vive a me perseguir. As desilusões que me cutucam. O desgosto por um mundo de aparências, por esse simulacro de empatia, prosperidade e alegria que tantas vezes parece nos cercar.

No fundo, às vezes me sinto um fracassado. Às vezes, depressivo. Talvez seja minha condição, essa saudade constante, essas despedidas sucessivas, essa caminhada solitária de encontros e desencontros.

Mas então me lembro do circo.

Lembro que, mesmo pequeno, mesmo remendado, mesmo sobrevivendo com tão pouco, ele continua de pé. Continua viajando. Continua recebendo pessoas. Continua fazendo rir, sonhar e se encantar.

E talvez haja alguma coisa nisso que eu ainda precise aprender.

Talvez a vida não seja apenas sobre chegar a algum lugar, mas também sobre encontrar, pelo caminho, esses pequenos mundos que nos devolvem por alguns instantes a sensação de pertencimento.

Circo Croacia Zagreb Rogério PivaO Circo Alexander Picard foi um desses lugares.

Aqui deixo esta região dos Bálcãs com muita vontade de voltar. Quero me deliciar novamente com os pães, com as paisagens, com as cidades históricas e com a poesia que encontrei em tantos encontros.

A cada amigo, obrigado pelo encontro.

 

E ao pequeno circo, obrigado por me receber tão repentinamente e por me lembrar que, mesmo nesta caminhada errante, ainda existem lugares onde a gente pode se sentir em casa.

 

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